O El Niño de 2023 e 2024 quebrou o roteiro que os cientistas esperavam. Pesquisadores do National Center for Atmospheric Research (NCAR), centro ligado à National Science Foundation e sediado em Boulder, no Colorado, aguardavam o padrão clássico: estações mais úmidas na faixa sul dos Estados Unidos e tempo seco nas porções norte do país. Nada disso se confirmou.
Os efeitos, porém, apareceram em outros lugares — e com força. Aqui no Brasil, a Amazônia encarou uma seca do tamanho que não se via há 120 anos. A explicação, segundo o próprio NCAR, veio no ano seguinte: o aquecimento global cozinhando lentamente as águas tropicais do oceano Índico e do Atlântico acabou compensando os efeitos do El Niño sobre a América do Norte, rompendo uma dupla de padrões climáticos que os cientistas chamam de teleconexão.
O que são teleconexões, afinal
Teleconexão é o nome técnico para um fenômeno que qualquer fã de ficção científica reconheceria como efeito borboleta em escala planetária. Uma mudança de temperatura em um ponto do globo desencadeia consequências em regiões distantes, às vezes por semanas ou até anos. O exemplo mais famoso é o El Niño/Oscilação Sul (ENSO), o padrão que aquece águas do Pacífico e reorganiza o clima em praticamente todo o mundo.
O ecologista Sergio de Miguel, da Universidade de Lleida e da unidade de pesquisa CTFC-Agrotecnio, na Espanha, descreveu esse emaranhado de ligações como uma espécie de efeito borboleta complexo, no qual eventos em um lugar geram desdobramentos muito longe dali. Só que esse mecanismo, antes razoavelmente previsível, está mudando de comportamento diante dos nossos olhos.
Padrões que simplesmente se invertem
Eran Vos, cientista do clima da Universidade Bar-Ilan, em Israel, tem analisado o assunto. Em entrevista à revista Nature, ele foi direto: sabemos menos sobre as teleconexões da atmosfera nova. Segundo ele, as sinergias entre o aquecimento global — como a elevação da temperatura da superfície do mar — e o comportamento do El Niño tornam o fenômeno mais difícil de prever e, consequentemente, mais difícil de enfrentar.
Vos e seus colegas vasculharam registros meteorológicos históricos atrás de pistas sobre esse impacto. O que encontraram é quase contraintuitivo. Os padrões de aquecimento que o El Niño provocava no sul da Ásia e no nordeste da África entre 1960 e 1990 se inverteram: hoje, essas mesmas regiões tendem a registrar temperaturas mais frias durante episódios de El Niño. Na Europa Ocidental, as ondas de frio associadas ao fenômeno naquelas décadas também viraram do avesso e agora se correlacionam com estações mais quentes.
Como resumiu Vos à Nature, você mexe nos padrões e o tempo reage. Traduzindo para a prática: o manual antigo, baseado em décadas de observação, já não descreve com precisão o planeta em que vivemos agora.
Um El Niño sem precedentes recentes
Tem mais um detalhe que embaralha tudo. O El Niño de 2026 é o primeiro desde o fim dos anos 1990 gerado por águas quentes no Pacífico oriental, e não no Pacífico central. Isso importa porque as três últimas décadas de observação se concentraram no outro tipo de formação. Ou seja, não existe um histórico robusto para comparar e afirmar como esse episódio deve se comportar.
Clara Deser, cientista sênior do NCAR e coautora do estudo sobre o El Niño atípico de 2023-24, colocou a questão em termos bem claros: o precedente histórico pode já não ser um guia confiável para as teleconexões do ENSO à medida que os padrões de aquecimento antropogênico se intensificam. E completou, em entrevista ao The New York Times em maio: estamos agora em um clima de linha de base diferente.
O que isso muda na prática
Prever El Niño nunca foi trivial, mas havia um certo conforto em décadas de dados que pareciam se repetir de forma cíclica. Esse conforto está indo embora. Se as teleconexões mudam de sinal — de frio para quente, de seco para úmido —, os modelos treinados no passado passam a errar justamente nos eventos extremos, que são os que mais machucam.
Para quem vive no Hemisfério Sul, a conta chega rápido. Secas como a que atingiu a Amazônia não ficam restritas à floresta: mexem com hidrelétricas, com o preço da energia, com a navegação de rios que funcionam como estradas e com a agricultura de várias regiões. Cada grau a mais na superfície dos oceanos é uma variável adicional nessa equação — e variável a mais significa incerteza a mais na hora de planejar safra, reservatório ou logística.
Vale lembrar que a ciência do clima não depende de bola de cristal. Boias oceânicas, satélites e estações espalhadas pelo mundo alimentam modelos que são recalibrados o tempo todo. A mensagem dos pesquisadores não é que o El Niño virou imprevisível do dia para a noite, e sim que a linha de base mudou. O clima que aprendemos a mapear nas últimas décadas não descreve mais o mesmo planeta que estamos observando agora — e cada novo episódio funciona, no fundo, como um teste em campo de teorias que ainda estão sendo escritas.
Fonte: Gizmodo