Se você achava que Saturno já tinha revelado todos os seus segredos depois do famoso hexágono no polo norte, segura essa novidade: o Telescópio Espacial Hubble, da Nasa, flagrou uma estrutura atmosférica gigante com dez lados — um decágono — circulando o polo sul do planeta. E o mais curioso: essa estrutura parece estar se formando e se intensificando bem diante dos nossos olhos.
O novo estudo, publicado na revista Science Advances, mostra que essa onda atmosférica não é um simples padrão superficial. Ela se estende verticalmente por diferentes camadas da atmosfera de Saturno, o que indica que estamos diante de um fenômeno profundo e complexo — e não de uma ilusão de ótica ou de um detalhe passageiro.
Um decágono em pleno processo de formação
Quem acompanha astronomia provavelmente conhece o hexágono do polo norte de Saturno, uma formação estável e intrigante observada há mais de quatro décadas. O decágono do sul, no entanto, é outra história. Apesar de lembrar o primo do norte, ele é claramente distinto: enquanto o hexágono segue ali, firme e constante, o decágono exibe mudanças contínuas. Para a equipe, isso pode significar que estamos assistindo ao nascimento de um novo padrão meteorológico em um planeta gigante — algo raríssimo de observar em tempo real.
Os cientistas não escondem o entusiasmo. A coautora do estudo e investigadora principal do programa OPAL afirmou que, em mais de 40 anos observando Saturno, nunca viu nada parecido no hemisfério sul. A estrutura parece estar ganhando força, o que representa uma oportunidade única para acompanhar a evolução de um sistema atmosférico em escala planetária.
Como a descoberta aconteceu
O caminho até aqui é quase tão interessante quanto o próprio fenômeno. A primeira pista não veio do Hubble, mas sim de observações feitas aqui da Terra. Astrônomos que enviam imagens para o Laboratório Virtual de Observatório Planetário, projeto ligado à Universidade do País Basco, notaram em 2024 uma ondulação sutil na região do polo sul de Saturno. O pesquisador Agustín Sánchez-Lavega, autor principal do estudo, foi um dos primeiros a perceber que aquilo poderia ser algo grande.
Para confirmar as suspeitas, a equipe recorreu ao Hubble. E não é para menos: o telescópio espacial enxerga Saturno sem a interferência da atmosfera terrestre, que costuma borrar as imagens, e ainda consegue acompanhar rotações completas do planeta com altíssima resolução. Foi assim que a presença do decágono se confirmou, com dados que chegam até 2023.
Por que ninguém viu isso antes?
A explicação tem a ver com as estações de Saturno. Assim como a Terra, o planeta tem estações do ano, mas cada uma delas dura vários anos. Por um bom tempo, o polo sul de Saturno ficou voltado para longe da nossa perspectiva, escondido dos telescópios. Com a mudança de estação, essa região voltou a ficar visível — e foi exatamente quando as primeiras evidências do decágono apareceram.
O que torna tudo mais curioso é que essa estrutura não era esperada. Existe uma certa simetria entre a circulação atmosférica dos dois hemisférios de Saturno, então a busca por uma contraparte do hexágono no polo sul sempre esteve nos planos. As imagens do Hubble desde 1990 e os dados da sonda Cassini, que orbitou Saturno entre 2004 e 2017, não indicavam nada com vida longa. O decágono chegou sem aviso.
O papel do Hubble e do programa OPAL
Parte do mérito dessa descoberta pertence ao programa OPAL (Outer Planet Atmospheres Legacy), que fotografa os planetas exteriores todos os anos há mais de uma década. Em vez de capturar imagens isoladas, o programa acompanha a evolução de fenômenos de curta e longa duração. O coautor do estudo, Mike Wong, reforça que a continuidade dos registros é o que permite transformar pequenas anomalias em grandes revelações. Sem um acervo de longo prazo, uma mudança lenta e gradual poderia simplesmente passar batido.
O que vem a seguir?
Agora, a equipe quer descobrir se o decágono vai se estabilizar em uma configuração permanente ou se continuará a sofrer mutações. As próximas observações podem ajudar a entender o que impulsiona essa onda, o que ela revela sobre a dinâmica atmosférica de planetas gigantes e até como esses padrões se relacionam com fenômenos que conhecemos aqui na Terra, claro que em proporções bem diferentes.
Saturno, que sempre pareceu um dos planetas mais fascinantes do Sistema Solar, acaba de ganhar mais um capítulo de mistério. E o mais legal é pensar que, com telescópios cada vez mais potentes e projetos de observação contínua, o que vimos até agora pode ser apenas o começo de uma longa história de descobertas.
Fonte: cnnbrasil.com.br